O design como vendedor silencioso: como embalar o futuro das proteínas vegetais
- Ana Laura Caon Bonato

- 6 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: 21 de jun.

Analisar o mercado de proteínas vegetais sob as lentes de negócios e design exige entender que o setor passou por uma grande transformação. O momento da euforia financeira deu lugar a uma fase de maturidade, racionalização e foco no consumidor. Não estamos mais na fase de crescimento movida pela novidade, o mercado entrou em uma fase de consolidação.
O público vegano e vegetariano é fiel, mas ainda bastante nichado. Hoje o motor de crescimento do setor são os flexitarianos, que são as pessoas que buscam reduzir o consumo de carne por saúde ou sustentabilidade.
Para conquistá-los, o posicionamento dita o design e a comunicação, seguindo dois caminhos claros no Brasil:
1. Disruptivo e tech, que traz como proposta copiar a carne animal em sabor, textura, cheiro e sangramento, porém usando tecnologia de plantas. O público-alvo é o carnívoro ou o flexitariano que quer a experiência do hambúrguer, mas sem o impacto ambiental. Eles não se posicionam no corredor de comida saudável, mais natural, mas sim no corredor da carne.
2. Equilíbrio e saúde, que tem como foco a nutrição, em ingredientes reconhecíveis e no bem-estar. Essas empresas apostam muito na versatilidade do dia a dia com apelo voltado para quem cuida da saúde e quer praticidade. Buscam atender o consumidor consciente, focado em dietas, intolerâncias alimentares (sem lactose, sem glúten) e saúde.
Nas gôndolas dos supermercados, a embalagem é o vendedor silencioso. E o design desse setor já passou por três ondas distintas: começou com o verde tradicional (caixas kraft e folhas), que conversava apenas com o nicho vegano, depois evoluiu para a onda tech/pop, simulando bandejas de carne com cores vibrantes e tipografias bold, e agora chega à fase atual: o visual clean focado no apetite (appetite appeal).
O maior desafio desse setor ainda são os preços, os produtos vegetais ainda são vistos como premium ou caros se comparados à proteína animal comum. As marcas que conseguirem otimizar a cadeia produtiva para atingir o equilíbrio de preço terão maior vantagem competitiva.
O design precisa justificar o preço mais alto entregando valor nutricional claro no painel frontal.
Se o mercado percebe o produto como caro e o futuro está em resolver o almoço do dia a dia, o design precisa parar de parecer artesanal, premium de boutique e começar a parecer prático, confiável e democrático. A embalagem precisa comunicar sabor e preço justo.
Esse amadurecimento é sustentado pelos números. Após um salto histórico em 2023, quando o setor cresceu 38% e ultrapassou pela primeira vez a marca de R$ 1,1 bilhão em faturamento no Brasil (dados da Euromonitor/GFI), o mercado se estabilizou em um patamar muito mais profissional. Em 2025, os análogos de carne consolidaram um crescimento moderado na casa dos R$ 1,5 bilhão, provando que o setor não encolheu, mas expulsou marcas com produtos ruins ou caros demais, concentrando o dinheiro naquelas que entregam escala e eficiência.
Agora, o verdadeiro crescimento do mercado de proteínas vegetais será construído na rotina do consumidor. Para as marcas, o desafio já não é mais provar que a tecnologia existe, mas sim usar o design e o posicionamento para transformar o consumo dos seus produtos em um hábito diário.

